3 músicas para entender a história do Brasil

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A música é uma das representações mais vivas da história, por isso, compreender o passado e o presente por meio dessa arte é um caminho lúdico para se localizar no tempo e no espaço. Confira três canções que têm muito a dizer sobre a história do Brasil.

1. “Maria de Vila Matilde”, de Elza Soares

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Elza Soares tem uma das canções mais emblemáticas sobre a violência contra a mulher. (Fonte: Instagram Elza Soares/Reprodução)

Durante muito tempo, esposas foram consideradas propriedades dos homens; seguindo o Código Civil Brasileiro de 1916, elas precisavam pedir autorização do marido até para trabalhar. Essa relação de poder ecoa em nossa cultura, fomentando a violência doméstica e o feminicídio. Felizmente, nos últimos anos, esse assunto tem movimentado a opinião pública e a área do Direito.

Em 2006, entrou em vigor a Lei Maria da Penha, que pune crimes de violência contra a mulher. Como a vítima muitas vezes tem receio de fazer a denúncia, a justiça decidiu em 2012 que, mesmo se a queixa for retirada, o agressor pode ser processado. O nome da lei foi uma homenagem à cearense Maria da Penha Maia Fernandes, que durante 23 anos sofreu agressões do marido a ponto de ficar paraplégica — ela lutou muito para que ele fosse condenado. 

Em 2015, entrou também em vigor a Lei do Feminicídio. Por muito tempo, assassinatos de mulheres foram considerados “crimes passionais”, e dizia-se que os homens matavam por “paixão”, mas a verdade é que esse discurso estava carregado da velha ideia de que a mulher é uma posse sem vontades nem poder de escolha. Contra isso, foi estabelecida a categoria do feminicídio, que define quem mata mulheres por serem mulheres. 

Foi em meio a esse cenário de avanços que a cantora Elza Soares lançou o álbum A Mulher do Fim do Mundo (2015), que inclui a canção “Maria de Vila Matilde“, na qual uma mulher se dirige a seu agressor e ameaça denunciá-lo. Também diz que não o quer dentro de casa e promete “soltar os cachorros” caso ele se atreva a entrar.

“Eu quero ver você pular / você correr na frente dos vizim / Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”

A canção foi escrita por Douglas Germano em homenagem à mãe, Maria. Moradora do bairro Vila Matilde, em São Paulo, ela sofreu repetidas agressões do marido. A cantora também foi vítima de violência doméstica. 

2. “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré

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Geraldo Vandré se tornou um símbolo de luta contra a repressão. (Fonte: Shutterstock)

Revoluções socialistas eclodiram em várias partes do mundo durante a segunda metade do século XX. Em nações capitalistas, qualquer possível reforma de esquerda estava sujeita a repressão, a exemplo do que aconteceu na América Latina. Argentina, Brasil e Chile tiveram ditaduras militares que se valiam da premissa de conter a desordem e fortalecer a economia enquanto tomavam o poder. Manifestações culturais e órgãos de imprensa foram censurados e milhares de membros da oposição, mortos e torturados. 

No Brasil, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu sem que houvesse a distribuição de renda adequada, e esse boom produtivo se tornou insustentável nos anos 1980, culminando em uma das maiores recessões da história nacional. Foi a chamada década perdida. A ascensão militar se deu com a deposição do presidente João Goulart. Uma das propostas que incomodaram a oposição foi o lançamento das reformas de base, que, entre outras coisas, previam desapropriações de terras e nacionalização de refinarias de petróleo.

A atuação dos militares era determinada pela instauração de Atos Institucionais (AI) como o AI-5, de 1968, conhecido por restringir a liberdade de expressão. Foi nesse cenário que o cantor e compositor Geraldo Vandré escreveu “Pra não dizer que não falei das flores“, música que ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção de 1968.

Símbolo da resistência contra a ditadura militar no Brasil, sua reprodução chegou a ser proibida. De melodia lenta e fácil memorização, ela conclama a população para o movimento, como um chamado à resistência:

“Vem, vamos embora / Que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora / Não espera acontecer”

A letra também incomodou o governo por denunciar a pobreza e criticar movimentos de “paz e amor” em um período em que só o que se via eram injustiças sociais a serem combatidas.

“Pelos campos há fome / Em grandes plantações / Pelas ruas marchando / Indecisos cordões / Ainda fazem da flor / Seu mais forte refrão”

3. “A triste partida”, de Luiz Gonzaga

Patativa do Assaré escreveu uma das letras mais emblemáticas sobre os movimentos de retirantes. (Fonte: Ministério da Cultura)

Durante a segunda metade do século passado, houve um intenso fluxo migratório de pessoas do Nordeste para o Sudeste em busca de melhores condições de vida. A situação tinha como pano de fundo o mito da seca, a ideia errônea de que o Nordeste é mais pobre e desigual que o eixo centro-sul por suas zonas áridas. Durante décadas, essa visão foi muito proliferada e serviu como caminho para desvios de verba entre os poderosos locais e manutenção de uma economia injusta. 

Esse denso fluxo migratório coincidiu com o auge do êxodo rural no Brasil, entre os anos de 1960 e 1980. É nesse sentido que a música “Triste partida“, interpretada por Luiz Gonzaga, traz um tom de despedida a elementos rurais ao retratar esse tipo de deslocamento.

“E vende seu burro / Jumento e o cavalo / Até mesmo o galo / Venderam também / Pois logo aparece / Feliz fazendeiro / Por pouco dinheiro / Lhe compra o que tem /Em cima do carro / Se junta a família / Chegou o triste dia / Já vai viajar”

“Triste partida” foi composta nos anos 1960 pelo cordelista Patativa do Assaré, grande ícone da cultura popular cearense. Luiz Gonzaga foi pessoalmente até ele para pedir autorização para gravar a canção que deu nome ao álbum do cantor lançado em 1964, marcando um período histórico de muitas transformações sociais.

Fonte: CRCSP, Letras, Toda Matéria, Guia do Estudante, Aventuras na História, Ministério da Cultura, Senado, Câmara e InfoEscola.