Entrevista: como a pandemia impactou a carreira dos biólogos?

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A covid-19 afetou a vida de todos, mas algumas carreiras foram transformadas de forma especial, a exemplo dos biólogos. Se você pensa em ingressar na área de ciências biológicas, vale a pena conferir o que o “novo normal” reserva para esses profissionais. O professor Adriano Monteiro de Castro, coordenador do curso de Ciências Biológicas do Mackenzie, fala um pouco dessas mudanças. 

Castro é coordenador do curso de Ciências Biológicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). (Fonte: Mackenzie/Reprodução)

A pandemia mudou a percepção da população sobre o trabalho do biólogo?

O que a pandemia fez foi trazer a opinião dos biólogos para o mainstream. O biólogo Atila Iamarino, por exemplo, já era um influenciador com o canal Nerdologia para a audiência interessada em ciências da natureza, e agora mais pessoas o conhecem.

Esse fenômeno demonstrou que o biólogo não é um profissional que atua apenas na conservação e na proteção dos ecossistemas, na catalogação e no estudo da biodiversidade, na bancada observando núcleos de células no microscópio ou dando aulas na educação básica. 

Todas essas áreas de atuação são importantíssimas, mas o biólogo passou a ser percebido como um pesquisador de curas e vacinas, além de promotor da saúde pública.

Então os biólogos podem trabalhar no desenvolvimento de vacinas?

Biólogos podem trabalhar no desenvolvimento de imunizantes. (Fonte: Cryptographer/Shutterstock)

Sim, sempre trabalhamos nessa área, direta ou indiretamente.

Diretamente porque muitos de nós atuam na pesquisa aplicada, voltada ao desenvolvimento das vacinas desde os estudos pré-clínicos, que envolvem análises em laboratório, com testes em cobaias, até estudos clínicos, com testagem em voluntários humanos.

Indiretamente, porque os biólogos estão entre os profissionais mais atuantes na pesquisa básica, estudando as características dos vírus, como se proliferam ao infectar organismos, como podem ser inativados etc. Esses conhecimentos são importantíssimos para os pesquisadores que atuam na pesquisa aplicada.

Você falou de saúde pública. Como o biólogo atua nesse campo?

Biólogos podem atuar nas áreas de vigilância sanitária, epidemiológica e ambiental. Hoje, eles frequentemente trabalham com as chamadas doenças negligenciadas, que acometem principalmente populações mais vulneráveis justamente por conta de uma carência histórica na produção de vacinas e drogas terapêuticas. Dengue, febre amarela, doença de chagas e leishmaniose são exemplos disso.

Nesse campo, o olhar dos biólogos para as questões ambientais indubitavelmente contribui para o desenvolvimento de ações de educação em saúde, controle de vetores e transmissão. Além disso, faz parte da formação dos biólogos estudar dinâmica de populações, bioestatística, imunologia, doenças infecciosas e parasitárias, o que prepara o profissional para atuar nessas áreas.

Algo que pode ocorrer nos próximos meses e anos em função da pandemia é o aumento do investimento em pesquisas desses setores, bem como uma ampliação das oportunidades de carreiras mais ligadas à saúde pública.

Em sua opinião, como será o futuro da pesquisa brasileira na área das ciências biológicas?

Para Castro, é necessário que o desenvolvimento científico e tecnológico receba prioridade por parte dos governos. (Fonte: Arthur Matsuo/Shutterstock)

É uma pergunta bem difícil de ser respondida, porque depende de governos futuros, uma vez que a pesquisa científica precisa de muito investimento.

E são investimentos de diversas ordens: na educação básica e superior; na remuneração dos pesquisadores, que no Brasil se concentram nas universidades; na destinação de verbas para projetos de pesquisa; na atração de corporações internacionais; e no zelo pelas entidades daqui que desenvolvem pesquisas aplicadas. 

Os governos têm papel preponderante no desenvolvimento científico e tecnológico do país, mas uma coisa é certa: se o governo realmente pretende que o Brasil figure no rol das nações desenvolvidas, não há alternativa a não ser valorizar a produção científica e tecnológica. Por isso, espero que a sociedade passe a cobrar essa responsabilidade dos governantes.

Os biólogos que optaram pela sala de aula têm vivido mudanças na vida escolar. O que esperar dessa atividade?

Neste momento em que conversamos, acabamos de entrar em uma nova fase de isolamento social mais radical, pois vemos estatísticas de 1,8 mil mortes por dia. Esse marco deve prolongar o ensino remoto por um período maior, já que é muito difícil defender o retorno ao ensino presencial em circunstâncias assim. 

As atividades escolares não pararam durante os meses de pandemia, e os professores estão sendo chamados a se reinventar. Escolas se organizaram para distribuir atividades aos alunos, municípios criaram espaços virtuais de aprendizagem e muitos professores passaram a dar aulas até por WhatsApp.

Diante dessa adaptação e do número de mortes, o bom senso já deveria ser suficiente para que a sociedade defendesse um funcionamento dos equipamentos escolares em modo “stand-by“. Mas um aprendizado da pandemia que talvez permaneça seja a cobrança maior da população pela democratização do acesso aos meios de comunicação e à internet.

O que tenho a dizer para os professores de Ciências e Biologia ou para quem deseja se formar para essa atividade é: a alfabetização científica (o porquê de se fazer pesquisas científicas e como os cientistas trabalham) é o meio mais eficaz de evitar muitos dos transtornos que vivemos em função da propagação de fake news. 

E quais são os impactos desse período no ensino superior?

Área de controle epidemiológico tende a se fortalecer na formação de novos biólogos. (Fonte: Anatoly Gleb/Shutterstock)

Nós, professores universitários, estamos no mesmíssimo barco, aprendendo a fazer coisas diferentes com recursos que já tínhamos à disposição. 

O acúmulo de experiências desse período provavelmente inspirará um ensino híbrido, com maior presença das tecnologias da informação e comunicação. As universidades passaram a organizar cursos de formação de professores para uso de tecnologias, e essa deve ser uma tendência permanente.

Outra possibilidade é a reformulação do currículo. A formação do biólogo deve incorporar ainda mais conteúdos voltados à promoção da saúde e à divulgação científica, mantendo a vocação interdisciplinar da profissão que une interpretações ecossistêmicas e campo biotecnológico.

Fonte: UPM.

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