A inteligência artificial já entrou na rotina de estudantes de diferentes níveis de ensino. Ferramentas capazes de responder perguntas, resumir textos, organizar informações e auxiliar na produção de conteúdos passaram a fazer parte das estratégias usadas para estudar, pesquisar e realizar atividades acadêmicas.
Um retrato recente desse cenário aparece no PISA 2025, divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em setembro de 2026. Embora a avaliação seja realizada com estudantes de 15 anos, seus dados ajudam a dimensionar a presença da tecnologia na formação educacional: no Brasil, 48% dos estudantes afirmaram utilizar chatbots de inteligência artificial para ajudá-los a aprender pelo menos uma vez por semana. A média entre os países e economias da OCDE foi de 46%.
Entre os estudantes brasileiros avaliados,
Os números mostram que a IA já é utilizada em diferentes etapas do processo de aprendizagem, desde o primeiro contato com um assunto até a organização de uma produção acadêmica.
Na universidade, o uso de ferramentas de IA pode assumir diferentes funções. Uma delas é auxiliar na compreensão de conteúdos complexos. Um estudante pode, por exemplo, pedir que determinado conceito seja explicado de outra maneira, solicitar exemplos ou transformar um assunto extenso em uma lista de tópicos para orientar a revisão.
A tecnologia também pode contribuir para a organização dos estudos. A partir de uma lista de disciplinas, conteúdos e processo de revisão, enquanto a decisão sobre o conteúdo e a versão final por prazos, ferramentas de IA podem ajudar a estruturar um cronograma ou sugerir uma divisão das atividades ao longo da semana. Em trabalhos acadêmicos, também podem ser utilizadas para levantar perguntas sobre um tema, identificar possíveis linhas de pesquisa ou ajudar na organização inicial das ideias.
Outra possibilidade está na revisão. Depois de produzir um texto por conta própria, o estudante pode utilizar uma ferramenta para identificar problemas de clareza, estrutura ou gramática. Nesse caso, a IA funciona como um recurso adicional sob responsabilidade do autor.
Esse tipo de uso se aproxima da perspectiva defendida pela UNESCO em seu Marco Referencial de Competências em IA para Estudantes. O documento propõe que a formação para o uso da inteligência artificial envolva não apenas conhecimentos técnicos, mas também pensamento crítico, ética, responsabilidade e capacidade de avaliar as soluções produzidas pelos sistemas.

A facilidade para obter uma resposta pode criar uma armadilha: confundir a conclusão de uma tarefa com a aprendizagem do conteúdo. Se um estudante simplesmente entrega à ferramenta a resolução de um problema, a elaboração de um texto ou a interpretação de uma leitura, parte importante do processo intelectual deixa de acontecer.
Os próprios dados do PISA 2025 mostram que a relação entre utilização de IA e desempenho não é simples. A OCDE identificou diferenças de desempenho de acordo com a frequência e a finalidade do uso. Entre estudantes que utilizavam IA para tarefas escolares específicas, como resumir textos ou fazer pesquisas preliminares, aqueles que não utilizavam chatbots apresentaram, em média, desempenho superior em Ciências.
Por outro lado, estudantes que utilizavam IA semanalmente com a finalidade geral de ajudá-los a aprender apresentaram desempenho semelhante ao dos não usuários. A OCDE ressalta que esses resultados não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito.
Isso ajuda a explicar por que a questão central para quem está na universidade não precisa ser apenas se a IA deve ou não ser utilizada. O ponto passa pela maneira como a ferramenta é incorporada à rotina acadêmica.
Em vez de pedir diretamente uma resposta para uma questão, por exemplo, o estudante pode utilizar a IA para criar perguntas de revisão e tentar respondê-las sozinho. Em uma leitura, pode solicitar uma explicação sobre um conceito que não compreendeu e, depois, retornar ao material original para verificar a informação. Em um trabalho escrito, pode pedir sugestões de estrutura antes de desenvolver o texto com suas próprias referências e argumentos.
O objetivo é preservar justamente as etapas que produzem conhecimento: leitura, interpretação, comparação de informações, formulação de hipóteses, argumentação e revisão.
A utilização de inteligência artificial também muda uma habilidade fundamental para a vida acadêmica: saber avaliar uma informação antes de utilizá-la.
Modelos de IA generativa podem produzir respostas convincentes mesmo quando apresentam erros, informações incompletas ou referências inadequadas. Por isso, uma resposta bem escrita não deve ser automaticamente considerada correta.
A UNESCO destaca a importância de preparar estudantes para avaliar criticamente os sistemas de IA e compreender aspectos como ética, privacidade, vieses e responsabilidade. Seu marco de competências para estudantes organiza essa formação em quatro dimensões: mentalidade centrada no ser humano, ética da IA, técnicas e aplicações de IA e design de sistemas de IA.

Na prática, isso significa conferir informações em fontes confiáveis, consultar os materiais indicados pelos professores e comparar diferentes referências antes de utilizar uma informação em um trabalho. Também significa compreender que uma ferramenta de IA não substitui a leitura de um artigo científico, de um livro ou de uma fonte primária quando esses materiais são necessários para a atividade.
A própria OCDE aponta que as oportunidades de aprender a avaliar a qualidade de informações geradas por IA podem fazer diferença. No PISA 2025, estudantes que utilizavam IA para aprender e também tinham oportunidades de desenvolver essa avaliação crítica na escola apresentaram resultados ligeiramente melhores em Ciências. A organização, entretanto, ressalta que os dados não determinam causalidade e que o acesso a esse tipo de orientação ainda é desigual.
A popularização da IA também trouxe novas discussões sobre autoria e integridade acadêmica. Afinal, até que ponto uma ferramenta pode participar da produção de um trabalho? A resposta depende das regras da instituição, da atividade proposta e das orientações do professor.
Por isso, antes de utilizar IA em uma tarefa, é importante verificar quais são as regras aplicáveis. Algumas atividades podem permitir seu uso como apoio à pesquisa ou à revisão, enquanto outras podem exigir produção integralmente autoral.
Também é importante diferenciar auxílio de terceirização da atividade. Utilizar uma ferramenta para sugerir perguntas, organizar um plano de estudos ou apontar problemas de clareza em um texto próprio é diferente de solicitar a produção de um trabalho completo e apresentá-lo como se tivesse sido elaborado integralmente pelo estudante.
A UNESCO recomenda justamente uma abordagem centrada nas pessoas para a utilização da IA na educação, com atenção a questões como segurança, privacidade, equidade e uso significativo da tecnologia. A organização também defende o desenvolvimento de políticas e práticas educacionais que considerem as possibilidades e os riscos da IA generativa.

Para quem está na graduação, algumas práticas podem ajudar a utilizar essas ferramentas de maneira mais estratégica:
A inteligência artificial está alterando ferramentas e métodos utilizados para estudar, mas também está criando novas demandas para a formação acadêmica. Saber formular perguntas, avaliar respostas, identificar erros, verificar fontes e compreender os limites de uma tecnologia passa a fazer parte das competências necessárias para lidar com esse cenário.
Nesse contexto, aprender a utilizar IA de forma responsável pode ser tão relevante quanto conhecer suas funcionalidades. Para estudantes universitários, a tecnologia pode contribuir para a organização e o aprofundamento dos estudos, desde que esteja integrada a um processo que preserve a autonomia, o pensamento crítico e a construção do conhecimento.
A formação profissional, portanto, também envolve aprender a lidar com as tecnologias que já estão transformando diferentes áreas do mercado de trabalho. Conhecer essas ferramentas, compreender seus limites e desenvolver a capacidade de utilizá-las de maneira ética e estratégica são competências que podem acompanhar o estudante durante a graduação e além dela.
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